Vivemos tempos difíceis, nosso dia a dia é carregado de embates, altos e baixos, numa roda gigante de sentimentos de felicidade e frustrações, que me faz lembrar a frase do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, quando certa vez referindo-se sobre esta volatilidade disse: “ontem você estava no céu, hoje já está nas profundezas do inferno”.

Mas, nossa alma procura a estabilização do ambiente, assim como nosso corpo que busca sempre mater a regularidade da temperatura de calor próximo aos 36º célsius, o que não quer dizer acomodação, mas sim, a harmonia que nos traz a certeza das ações que nos anima na força de que temos de prosseguir, diferente dos tumultos das incertezas.
A degeneração da qualidade de nossas vidas se dá diante das incertezas, provocadas pelo sentimento de impotência diante daqueles que por questões sociais se apresentam acima de nós, seja um chefe, seja uma autoridade, seja ate mesmo alguém próximo que se sente acima dos outros, que nós faz o tempo todo desenvolver o sentimento de baixa estima e medo do dia a dia, como a referência ao setimento de derrota, feito pelo Pala Leão XIV, na Audiência Geral de 22/10/2025 sobre os irmãos de Emaús:
Em sua catequese, o papa comparou a tristeza que tira “sentido e vigor à vida”, transformando-a “numa viagem sem rumo nem significado”, com os sentimentos vividos pelos discípulos de Emaús devido à morte de Jesus.
“Desiludidos e desanimados, eles partem de Jerusalém, deixando para trás as esperanças depositadas em Jesus, que foi crucificado e sepultado”, disse Leão XIV.
Para o papa, o relato dos dois discípulos de Emaús, no Evangelho de são Lucas (Lc 24,13-29), é um paradigma da tristeza humana. Ele disse que o relato demonstra “o fim do objetivo no qual foram investidas tantas energias, a destruição daquilo que parecia ser o essencial da própria vida”. (CARDIEL, p. 2025).
Sim, é verdade, vivemos nos dias de hoje a destruição daquilo que parecer o essencial da própria vida porque nos parece que tudo está corrompido, tudo está desgovernado, se resumindo em violência e saques, ao ponto de olharmos ao nosso redor e nos vermos como se víssemos somente ruínas, porque mataram tudo o que parecia ser o essencial de nossas vidas.
Mas a exemplo dos irmãos de Emaús, assim sentimos… porque perdemos a nossa fé, a nossa conexão com Deus, que mesmo sendo tão amoroso com cada um de nós, nos rebelamos, e deixamos de acreditar nele, como aquela criança que por ter sofrido uma correção paterna, passa a pensar que seu pai é o pior de todos, e já não acredita mais nas suas promessas.
Por isso, a fraqueza toma conta de nós, porque abrimos mão de nos alimentarmos da força que nutre a alma: – Exulte o coração que busca a Deus! Procurai o Senhor Deus e seu poder, buscai constantemente a sua face (Salmo 103,3s [104] – Antífona de entrada 30º Domingo do Tempo Comum – 26 out. 2025).
Renunciamos ao néctar que sustenta toda a criação, porque decidimos desafiar o mundo lutando somente com as nossas próprias forças, porque nos vemos sozinhos e desprezados, primeiramente pelo Pai, e achamos que teremos que somente pelas nossas próprias forças, cuidar de nós mesmos, e se quer lembramos que de tanto nos amar, houve Jesus, aquele Filho dado à morte pelo Pai, porque nos ama, e continua a nos amar.
Vivendo como um ser entregue a própria sorte, nós perdemos a fé, e já não reconhecemos a dignidade de filhos de Deus, que nos eleva acima dos portões da morte:
– Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e, para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que ordenais. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos (Oração da Coleta – 30º Domingo do Tempo Comum – 26 out. 2025).
Que nós tomemos consciência desse amor abundante e generoso que nos cerca, e renunciemos as nossas rebeldias porque, mantendo a nossa fé como São Paulo nos ensina: eu sei em quem pus a minha causa, o Senhor me atenderá na hora da minha aflição:
– Leitura do livro do Eclesiástico: 15bO Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas. 16Ele não é parcial em prejuízo do pobre, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; 17jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas. 20Quem serve a Deus como ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. 21A prece do humilde atravessa as nuvens: enquanto não chegar não terá repouso; e não descansará até que o Altíssimo intervenha, 22afaça justiça aos justos e execute o julgamento. (Eclesiástico 35,15b-17.20-22 – 30º Domingo do Tempo Comum – 26 out. 2025).
Conclusão:
Hoje nos parece que tudo está perdido, só há corrupção, violência e egoísmo dos homens, e sentimos em nosso coração que não podemos mais esperar em nada. Não é verdade, Deus sempre está ao nosso lado e devemos ter a certeza da sua promessa para cada um de nós, porque Ele que tudo vê, nos pede para continuarmos a seguir nossas vidas acreditando que ele não nos desamparará.
O pobre clama a Deus e ele escuta: o Senhor liberta a vida dos seus servos.
– Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegrem!
– Mas ele volta a sua face contra os maus, para da terra apagar sua lembrança. Clamam os justos, e o Senhor bondoso escuta e de todas as angústias os liberta.
– Do coração atribulado ele está perto e conforta os de espírito abatido. Mas o Senhor liberta a vida dos seus servos, e castigado não será quem nele espera (Responsório, Salmo 33 [34] – 30º Domingo do Tempo Comum – 26 out. 2025).
Renunciemos a nossa rebeldia, o nosso orgulho da falsa ideia que cuidamos de nós mesmos, e reconheçamos a fragilidade de nossa vida diante do Senhor:
– Naquele tempo, 9Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10“Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. 13O cobrador de impostos, porém, ficou a distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. (Lucas 18-9-14 – – 30º Domingo do Tempo Comum – 26 out. 2025).
Se colocamos a nossa confiança na nossa própria sorte, sempre estaremos renunciando à vida que nos pede para acreditar, para entregar todas a fragilidade da alma à morte, que nos ilude com riquezas materias, que nada podem comprar , com aquele homem de sorte que teve tudo, mas, morreu, cantada por Emerson Lake & Palmer, Lucky Man:
Laço branco e penas,
Elas enfeitavam sua cama
Um colchão coberto de ouro
No qual ele deitava
Ooh, que homem de sorte ele era,
Ooh, que homem de sorte ele era.
Ele foi lutar na guerra
Por seu pais e seu rei
Por sua honra e por sua gloria,
As pessoas cantariam
Ooh, que homem de sorte ele era,
Ooh, que homem de sorte ele era.
Uma bala o achou,
Seu sangue correu enquanto ele chorava
Nenhum dinheiro poderia salva-lo,
Então ele se deitou e morreu
Ooh, que homem de sorte ele era,
Ooh, que homem de sorte ele era.
Referência:
CARDIEL, Victoria. A ressurreição de Cristo pode curar a tristeza, uma das doenças do nosso tempo, diz Leão XIV. In ACI Digial – Caderno Notícias, 22/10/2025 – Disponível em https://www.acidigital.com/noticia/65081/a-ressurreicao-de-cristo-pode-curar-a-tristeza-uma-das-doencas-do-nosso-tempo-diz-leao-xiv. Acesso em 24 out. 2025.
